“Deus, Um Delírio”, de Richard Dawkins

Deus, um delírio” foi o primeiro livro que li no ano de 2019.

Crenças religiosas à parte, a obra de Richard Dawkins é para quem não tem medo de sair da sua zona de conforto. É para quem não teme ouvir opiniões bem fundamentadas, ainda que contrárias à sua visão de mundo.

Se você é uma pessoa religiosa, a leitura não será fácil. No final, contudo, se mantida a sua fé, o milagre de Deus lhe parecerá ainda mais poderoso.

Se você é agnóstico ou não muito religioso, há grandes chances de que a sua fé venha a sucumbir para o lado do ateísmo.

Por outro lado, se você já é ateu, o livro provavelmente lhe cairá como o afago amigo, que lhe diz “tudo bem; você não está sozinho e isso não te faz uma pessoa ruim“.

Independente do grupo em que você se encaixa, a leitura é extremamente aconselhada. Por certo, ao final do livro você será uma pessoa mais sábia, tendo acrescentado ao seu capital cultural um uma nova visão sobre um dos temas mais relevantes da humanidade: Deus e Religião.

Abaixo, destacamos seis trechos (não deixe de ler o 6o!) do livro que, em particular, me chamaram bastante atenção. Fica de reflexão – para quem já leu e para quem ainda vai ler – e de amostra do que esperar dessa excelente obra.

1- Sobre “ser ateu” não ser sinônimo de “ser uma pessoa má“.

“É possível ser um ateu feliz, equilibrado, ético e intelectualmente realizado.”

2- Sobre a estranha convenção, quase universalmente aceita, de que a fé religiosa é dona de um privilégio único: estar além e acima de qualquer crítica.

“No dia 21 de fevereiro de 2006, a Suprema Corte dos Estados Unidos determinou, de acordo com a Constituição, que uma igreja do Novo México deveria ser isentada de cumprir uma lei, a que todo mundo tem de obedecer, que proíbe o uso de drogas alucinógenas. Os integrantes do Centro Espírita Beneficente União do Vegetal acreditam que só conseguem compreender Deus tomando chá de ayahuasca, que contém a droga alucinógena ilegal dimetiltriptamina. Perceba que basta que eles acreditem que a droga aumenta sua compreensão. Eles não têm de fornecer provas. Por outro lado, há muitas provas de que a maconha alivia a náusea e o desconforto de doentes de câncer submetidos a quimioterapia. Mesmo assim, novamente de acordo com a Constituição, a Suprema Corte determinou, em 2005, que todos os pacientes que usarem a maconha com fins medicinais estarão sujeitos a indiciamento federal (até na minoria dos estados em que esse uso especializado foi legalizado). A religião é, como sempre, o trunfo. Imagine se os integrantes de uma sociedade de apreciadores de arte alegassem à Justiça que “acreditam” precisar de um alucinógeno para aumentar sua compreensão dos quadros impressionistas ou surrealistas. Mas, quando uma igreja alega uma necessidade semelhante, recebe o apoio da mais alta corte do país.”

Outro exemplo sobre o “supertrunfo” que se tornou a religião, independentemente do assunto por trás defendido:

“O reverendo Rick Scarborough, apoiando a onda de ações cristãs semelhantes para estabelecer a religião como justificativa legal para a discriminação de homossexuais e outros grupos, declarou-a (a religião e a defesa de seus ideais) como a luta pelos direitos civis do século XXI: “Os cristãos vão ter de se posicionar pelo direito de ser cristãos”. Se essas pessoas se posicionassem em nome da liberdade de expressão, haveria relutância em apoiá-las. Mas não é disso que se trata. O “direito de ser cristão” parece, nesse caso, significar o “direito de meter o bedelho na vida privada dos outros”. O caso jurídico a favor da discriminação de homossexuais está sendo montado como uma reação contra uma suposta discriminação religiosa! E a lei parece respeitar a atitude. Não dá para se safar dizendo: “Se você tentar me impedir de insultar homossexuais, estará violando minha liberdade de preconceito”. Mas dá para se safar dizendo: “Isso viola minha liberdade de religião”. Qual é a diferença, pensando bem? A religião, mais uma vez, supera tudo.”

3- Doutrinação religiosa de crianças:

Nossa sociedade, incluindo o setor não religioso, já aceitou a idéia absurda de que é normal e correto doutrinar crianças pequenas na religião de seus pais, e colar rótulos religiosos nelas — “criança católica”, “criança protestante”, “criança judia”, “criança muçulmana” etc. —, embora não haja nenhum outro rótulo comparável: não existem crianças conservadoras, nem crianças liberais, nem crianças republicanas, nem crianças democratas. Por favor, conscientize-se e faça barulho sempre que vir isso acontecendo. Uma criança não é uma criança cristã, não é uma criança muçulmana, mas uma criança de pais cristãos ou uma criança de pais muçulmanos. Essa nomenclatura, aliás, seria um excelente instrumento de conscientização para as próprias crianças. Uma criança que ouve que é “filha de pais muçulmanos” perceberá imediatamente que a religião é algo que cabe a ela escolher — ou rejeitar — quando tiver idade suficiente para tal.

4- Possíveis erros de tradução que ganharam enormes proporções:

“A. N. Wilson, em sua biografia de Jesus, chega a lançar dúvidas sobre a história de que José era carpinteiro. A palavra “tekton”, do grego, realmente significa “carpinteiro”, mas ela foi traduzida do aramaico “naggar”, que podia significar artesão ou homem culto.

Esse é um entre os vários erros de tradução constitutivos que habitam a Bíblia, sendo o mais famoso deles a tradução errada do hebraico para “moça” (“altnah”), em Isaías, transformada na palavra grega para virgem (“par-thenos”). Um equívoco fácil de cometer (pense nas palavras em inglês maid [moça, criada] e maiden [donzela, moça solteira, virgem] para ver como isso pode ter acontecido), um deslize de um tradutor, seria loucamente inflacionado para dar origem à absurda lenda de que a mãe de Jesus era uma virgem!

O único concorrente ao título de o maior erro de tradução constitutivo de todos os tempos também tem a ver com virgens. Ibn Warraq vem alegando, de modo hilariante, que, na famosa promessa de 72 virgens para cada mártir muçulmano, “virgens” é uma tradução errada de “passas brancas claras como cristal”. Puxa vida, se isso tivesse sido mais divulgado, quantas vítimas de missões suicidas poderiam ter sido salvas? (Ibn Warraq, “Virgins? What Virgins?”, Free Inquiry 26:1, 2006, pp. 45-6.)”

5- Qual é o critério para interpretar a Bíblia? Quando podemos interpretar literalmente e quando podemos interpretar em sentido figurado?

“Talvez existam algumas perguntas genuinamente profundas e
importantes que estarão para sempre fora do alcance da ciência. (…) Mas, se a ciência não pode responder a uma pergunta definitiva, o que faz alguém pensar que a religião possa? (…) O fato de que a ciência não é capaz de explicar um determinado assunto não é razão para dar à religião uma permissão total para nos dizer o que fazer. E qual religião? Aquela sob a qual por acaso fomos criados? A qual capítulo, então, de qual livro da Bíblia devemos recorrer? Pois eles estão longe de ser unânimes e alguns deles são horrendos, por qualquer padrão racional. Quantos literalistas leram o suficiente da Bíblia para saber que ela prescreve a pena de morte para o adultério, por recolher gravetos no dia de descanso e por ser insolente com os pais? Se rejeitarmos o Deuteronômio e o Levítico (como fazem todas as pessoas modernas e esclarecidas), por quais critérios devemos decidir quais valores morais da religião devemos aceitar? Ou devemos vasculhar todas as religiões do mundo até encontrar uma cujos ensinamentos morais nos sejam adequados? Se for assim, devemos perguntar novamente, por quais critérios vamos escolher? E, se tivermos critérios independentes para escolher entre as moralidades religiosas, por que não eliminar os intermediários e ir direto à escolha moral sem a religião?

6 – Cultos à carga:

“Em “A vida de Brian”, uma das muitas coisas que a equipe do Monty Python captou bem foi a extrema rapidez com que um novo culto religioso pode ter início. Ele pode surgir quase que da noite para o dia e a partir daí se incorporar numa cultura, onde assume um papel inquietadoramente dominante. Os “cultos à carga” da Melanésia e da Nova Guiné são os exemplos mais famosos na vida real. A história inteira de alguns desses cultos, do começo ao fim, está envolta em memória viva. Diferentemente do culto a Jesus, cujas origens não são atestadas de forma confiável, conseguimos ter o curso completo dos eventos diante dos olhos (e mesmo aí, como veremos, alguns detalhes se perderam). É fascinante imaginar que o culto ao cristianismo quase certamente começou de forma muito parecida, e espalhou-se inicialmente com a mesma alta velocidade. Minha principal autoridade para os cultos à carga é Quest in paradise [Jornada no paraíso], de David Attenborough que me foi gentilmente oferecido por ele. O padrão é o mesmo para todos eles, dos cultos mais antigos, no século XIX, aos mais famosos, que se desenvolveram depois da Segunda Guerra Mundial. Aparentemente, em todos os casos, os habitantes das ilhas ficaram impressionados com as fantásticas coisas que os imigrantes brancos possuíam, incluindo administradores, soldados e missionários. Eles foram talvez vítimas da Terceira Lei de (Arthur C.) Clarke, que citei no capítulo 2: “Qualquer tecnologia avançada o bastante é indistinguível da magia”.

Os ilhéus perceberam que os brancos que usavam aquelas maravilhas nunca as fabricavam eles mesmos. Quando artigos precisavam de conserto, eram enviados para algum lugar, e artigos novos continuavam chegando na forma de “carga” em navios ou, mais tarde, aviões. Jamais se viu um homem branco consertando qualquer coisa, e eles não faziam nada que pudesse ser reconhecido como trabalho útil (sentar atrás de uma mesa manuseando papéis era obviamente algum tipo de devoção religiosa). Evidentemente, portanto, a “carga” tinha de ter origem sobrenatural. Como que para corroborar a pressuposição, os brancos faziam certas coisas que só podiam ser cerimônias ritualísticas:

Eles construíam mastros altos com fios ligados a eles; ficavam sentados ouvindo pequenas caixas que brilhavam e emitiam barulhos curiosos e vozes abafadas; convenciam o povo local a usar roupas idênticas e o faziam marchar para lá e para cá — e seria quase impossível imaginar uma ocupação mais inútil que essa. E então o indígena percebe que a resposta para o mistério está na sua cara. Essas ações incompreensíveis são os rituais utilizados pelos brancos para convencer os deuses a enviar a carga. Se o indígena quiser a carga, também ele tem de fazer aquelas coisas.

Impressiona o fato de que cultos à carga semelhantes tenham nascido de forma independente em ilhas que são enormemente distantes, tanto em termos geográficos como culturais. David Attenborough nos diz queantropólogos perceberam dois focos distintos na Nova Caledônia, quatro nas Salomão, quatro em Fiji, sete nas Novas Hébridas e mais de cinqüenta em Nova Guiné, a maioria delas bastante independente e sem ligação entre si. A maioria dessas religiões afirma que um messias específico trará a carga quando o dia do apocalipse chegar.

O florescimento independente de tantos cultos independentes mas semelhantes sugere algumas características unificadoras da psicologia humana em geral.”

. . .

Espero que isso tenha aguçado a sua curiosidade em ler o livro. Quem quiser, eis o link para compra: https://amzn.to/2FNDfvW.

Boa leitura!

Dois Minutos de Prosa